Eles mentiram
Por Luiz Rezende
“Pontífice Romano, evita
aproximar-se da cidade banhada por dois rios. Teu sangue nela se
esparramará. Tu e os teus, quando a rosa florescer...” O vaticínio
figura entre os mais de mil feitos no século 16 por Michel de
Nostre-Dame, que latinizou seu nome para Nostradamus. Situada às
margens dos rios Ródano e Saône, a cidade de Lyon, na França,
sempre foi apontada pelos supersticiosos como o local onde essa
profecia teria cumprimento. Fazendo uso de seu palavreado repleto
de simbolismo ambíguo, tortuoso, às vezes indecifrável, o adivinho
predisse a morte daquele que, segundo a cronologia, seria o papa
João Paulo II. Haveria um sinal: quando a rosa florescer.
Esse “florescimento da rosa” ficou entendido como a vitória do
presidente socialista François Mitterand nas eleições de 1981, já
que a rosa foi o símbolo de sua campanha.
Pois bem, no dia 4 de outubro de
1986 estava agendada a visita de João Paulo II a Lyon. Católicos
da França e de outros países enviaram milhares de cartas à
Prefeitura e ao cardeal Decourtray, de Lyon, rogando que as
autoridades do Vaticano impedissem a visita do pontífice àquela
cidade. Mas João Paulo II não cancelou sua viagem. Durante quatro
dias visitou a cidade, logo após retornando para o Vaticano
tranqüilamente...
Nostradamus - o médico, astrônomo,
astrólogo, alquimista e poeta francês se tornou famoso no mundo
inteiro pelas suas profecias, quase sempre agourentas, reunidas em
dez volumes sob o título de “As Centúrias”. Vale salientar que a
infalibilidade de muitas de suas profecias se valeram da
interpretação tipo camisa-de-força que os intérpretes do
vidente deram às palavras indecifráveis de Nostradamus. De fato, o
Jornal do Brasil publicou, em 4 de abril de 1986, uma matéria
sobre o assunto. Diz-nos o texto que “Acontecido um falo
importante, seus intérpretes encarregam-se de adaptá-lo às
obscuras palavras do mestre. Por isso, o maior número de acertos
verifica-se quando esses fatos já são história (...) Não se tem
notícia de que qualquer profecia sua destrinçada antes de um fato
se tenha concretizado (...) Assim não há como errar”.
Nostradamus não poderia estar fora
da grande fileira de falsos profetas que, ao logo dos séculos,
teve quem acreditasse em suas previsões furadas. E como tem quem
acredite! Pelos números do IBGE, as religiões e seitas que tem
como base fundamental a pregação profética de alguma forma
extra-bíblica de apocalipse, reúnem 30 milhões de adeptos no
Brasil. São 600 mil seguidores que a cada ano ingressam no rol
dessas seitas paranóicas. Especialistas canadenses calculam que 20
mil novos movimentos religiosos atuam no mundo, 200 deles baseados
em cartilhas extremistas que induzem o suicídio e até
assassinatos.
Na Bíblia, toda e qualquer forma de
adivinhação, bem como práticas espíritas, é absolutamente
condenada em palavras bem claras: “Não achará em ti...
adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro;
nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os
mortos, pois todo aquele que faz tal coisa é abominável ao Senhor”
(Deuteronômio 18.10-12).
Mas não é somente a Bíblia que
condena tais práticas. No Brasil, a lei de contravenções penais,
em seu artigo 27, declara que a exploração de credulidade pública
“através de sortilégios, predição do futuro, explicação de sonhos
ou práticas congêneres”, sujeita o contraventor a ser punido em
até seis meses de prisão. Mas isto não tem impedido que uma
verdadeira legião de adivinhos atue do Norte ao Sul do país. O
Brasil é territorialmente muito grande, e isto proporciona uma
certa tranqüilidade a esses “comerciantes do futuro”.
Aquele que habita no esconderijo
do salmo 91...
A relação de profecias falsas, prognósticos e crendices que
existem espalhadas no meio do povo é imensa. O mais lamentável de
tudo isso é que muitos evangélicos adaptaram sua versão
“cristianizada” de superstição, vivendo presos a temores e
práticas ridículas. Muitos têm-se entregue a comportamento típico
de feiticeiro, particularmente, no que diz respeito ao uso da
Bíblia Sagrada, depositando mais confiança na eficácia de certos
versículos do que no restante das Escrituras, como um amuleto
evangélico. Um bom exemplo é o Salmo 91. Deus pode fazer uso de
infinitas maneiras para atuar na vida de seus servos, e não há
dúvida de que o Salmo 91 tem sido uma fonte gloriosa da
manifestação da sua maravilhosa graça. Entretanto, isso não
significa que o conhecidíssimo salmo de Davi tenha maior valor do
que Gênesis 1.1 ou Apocalipse 22.20 – o primeiro e o último
versículo da Bíblia. Há pessoas que, nas suas casas, mantém um
exemplar da Bíblia aberta neste salmo, por acreditarem que os
demônios têm medo dele. Esquecem-se, porém, que não é o Salmo 91
que os livrará do mal, e sim o Deus que inspirou Davi a
escrevê-lo. Demônio nenhum têm medo de versículos bíblicos, e sim
de quem os obedece. O diabo é extremamente conhecedor da Bíblia. A
diferença básica é que ele é astuto e faz mal uso dos versículos
para perverter a verdade bíblica. Um bom exemplo desse mau uso da
Palavra feito pelo diabo é na tentação de Jesus, citado em Mateus
4.1-11. Satanás empregou a Palavra de Deus, pervertendo o
verdadeiro sentido do texto, com a finalidade de tentar Cristo a
pecar. O que nos chama a atenção é que o versículo
citado por Satanás, para tentar Jesus, encontra-se no mesmo
capítulo que as pessoas usam como amuleto - o
Salmo 91. (Compare Mateus 4.6 com Salmo 91.11)
Conto do vigário evangélico
Aproveitando da ingenuidade de
muitos que procuram ter uma fé sincera em Jesus Cristo, certas
pessoas têm-se tornado verdadeiros camelôs da fé, comercializando
em pleno culto o que dizem ser azeito “ungido”, nardo de Maria,
água do Rio Jordão, areia do mar da Galiléia, ramos de oliveira do
Getsêmane, fiapos do lenço do apóstolo Paulo, e por aí afora. Uns
mais ousados requerem do povo uma “oferta de fé”, em troca da
oração pelo copo d’água, oração infalível de quebra de maldição
hereditária, unção de Carteira de Trabalho, envelopes de dízimos,
fotografias, ferimentos e uma infinidade de coisas ou objetos que
puder vir à mente.
Não existe azeito “ungido”. O que
existe é unção com azeite. Azeite também não é remédio. O azeite
simboliza o Espírito Santo e seu poder sanador. A unção com azeite
estimula a fé e segundo a Bíblia, deve ser aplicada pelos
presbíteros sobre aquele que estiver enfermo e não o local afetado
pela enfermidade (Tiago 5:14). Portanto, a unção com azeite é para
enfermos e qualquer outra aplicação da unção não encontra base
bíblica (não se deve confundir com a unção no Antigo Testamento).
Não vai demorar muito, haverá leilão
de ofertas para os fiéis levaram para casa um pequenino frasco de
vidro cuidadosamente tampado e visivelmente vazio, contendo o
último suspiro de Jesus. Contudo, haverá um dia em que estes
camelôs da fé terão um acerto de contas com o Todo-Poderoso.
É dessa forma que milhões de pessoas
(inclusive evangélicos), se mantém presos à crenças enganosas e à
falsas profecias, permanecendo cegas espiritualmente. Depositam
sua fé em tudo que vêem e ouvem pela frente.
O MAIS FAMOSO AGOUREIRO
Nascido em 14 de dezembro de 1503,
em Saint-Remy-de-Provence, no Sul da França, Nostradamus estudou
medicina na Universidade de Montppellier. Casou-se com Adriette de
Loubejac, com quem teve dois filhos, mas durante a terrível “Peste
Negra” que assolava a Europa, perdeu a mulher e os filhos.
Profundamente triste, ele recolheu-se ao mosteiro de Orval, em
Luxemburgo, e lá começou a escrever as primeiras profecias.
Após casar-se outra vez, com Ana
Ponsarde, entregou-se às práticas ocultistas, apesar de saber que
centenas de bruxas e feiticeiros estavam sendo perseguidos e
mortos em toda a Europa. Com medo de ser descoberto em suas
práticas e arrastado para a fogueira, Nostradamus aproveitou-se de
certa intimidade que possuía com figuras influentes da corte
francesa. Desse modo, escreveu uma carta ao rei Henrique II,
afirmando-lhe que era cristão zeloso na observância dos
mandamentos bíblicos. Tudo mentira, pois sabe-se que para escrever
suas previsões, ele fez uso da Cabala (ocultismo judaico),
astrologia, Tarô, e de papiros que haviam pertencido aos
discípulos de Hermes Trimegisto, o maior ocultista egípcio que se
tinha notícia.
No seu livro As Centúrias,
Nostradamus conta como recebia “inspiração” para suas profecias:
“Estando sentado, de noite, em secreto estudo, sozinho, repousando
sobre o tamborete (mesinha de três pés), uma chama exígua saía da
solidão”. Na continuação de seu relato, Nostradamus revela que
essa chama transformava-se em um espírito (um demônio) que vinha
ditar-lhe as profecias...